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O POVO, AINDA É QUEM MAIS ORDENA


A maior prova de que nada pode ser dado como adquirido para sempre, é o que nos está a acontecer com o COVID-19. Por isso, é bom que os democratas se mantenham vigilantes, “não vá o diabo tecê-las”!

Passados 46 anos, não tenho dúvida nenhuma que, se não tivesse acontecido naquele dia 25 de abril de 1974, teria sido num dia 25 doutro mês, ou em qualquer outro abril dos anos seguintes. A Guerra Colonial não podia continuar e a democracia tinha de ser restaurada.

Julgamento de presos políticos durante a ditadura
No entanto, hoje, ainda há quem acredite ser possível eliminar a nossa maior data do calendário da democracia portuguesa — O 25 de abril — e fazer com que o país regresse a um regime autoritário, idêntico ao que existia até 24 de abril de 1974.

É fundamental que os democratas estejam unidos no que é essencial e não se dividam ao sabor das redes-sociais.

UNIDADE PELOS VALORES DO 25 DE ABRIL!

Silvestre Brandão Félix
24 abril de 2020
Foto: Google

ANTES E DEPOIS DO ADEUS


Na véspera, ainda “Antes-do-Adeus”, o nosso Amigo Olímpio, não sabendo que era a última vez, precisou de aplicar o habitual disfarce nos livros “suspeitos”, que só vendia a clientes da máxima confiança. Mesmo assim, corria muitos riscos. A “bofaria”, passeava-se e dissimulava-se por toda a parte, até nas livrarias.

Naquele silêncio “ensurdecedor” do Reduto-Norte-de-Caxias, ele não podia saber que a Liberdade estava a umas horas de distância. Naquele mesmo dia, na véspera, ainda o sol não era, arrastaram-no até “ao sul” para mais um interrogatório. Esteve em pé, calado, umas quatro horas, calculou ele. Os três meses que por ali estava, tinham-no ensinado a contar o tempo: segundos, minutos, horas, dias e meses. Quando o obrigavam a estar muito tempo em pé, às vezes virado para a parede, enquanto o insultavam, ameaçavam a família e, quase sempre, lhe “chegavam-a-roupa-ao-pelo”,  o físico e os neurónios davam de si, mas, como o querer se sobrepunha, a cada tontura ou cambaleio, reagia ainda com mais força. Como permanecia numa cela completamente isolado, estava longe de saber que, em menos de dois dias, iria sair livre, pela porta da frente.

Não tinha passado muito tempo, desde que o navio, carregado de magalas, deixou para trás o Bugio na foz do Tejo e se lançou no Atlântico aberto. Com a G3 como inseparável companheira, carregado de angústia e medo, porque não dizê-lo, ali ia ele, como se o destino fosse a forca. Porque-raio, não fez como o Caparica? “Saltou” para França e conseguiu logo trabalho. E ele, a única certeza que tem, é uma guerra em África. Estava muito longe de saber que, no dia seguinte, quinta-feira, a esperança iria destemperar-lhe a angústia. O principal objetivo dos militares que iriam depor o regime da ditadura, era, exatamente, acabar com a Guerra Colonial. Naquela véspera, ele não podia adivinhar o que aí, vinha.      

Na quarta feira, o mancebo teve os mesmos cuidados e olhou pelo canto do olho, as vezes que o instinto o mandava fazê-lo. Continuava, porque não sabia que aquele dia era a véspera, a tentar adivinhar o que seria o seu futuro, a curto prazo. “Assentava-Praça” em 75, ou seja, dali a um ano já podia estar a “marcar passo”. A seguir; Rocha-Conde-de-Óbidos, lencinhos brancos de adeus e ala até Angola, Guiné ou Moçambique. Tal como a quase totalidade dos portugueses, incluindo os do governo, o mancebo não sabia que, aquela hora, uma onda libertadora já se movimentava, para que nada disso tivesse de vir a acontecer.

“Aqui! Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!”
E o mancebo: Já não tenho de ir para a guerra!

Silvestre Brandão Félix
24 abril de 2019 - atualizado e editado em 25 abril de 2025 

JÁ NÃO VOU PARA A GUERRA!

Do terceiro andar, daquela janela, eu conseguia ver, mesmo sem “Google Earth”, tudo o que acontecia na “hora”, tinha acontecido, ou, que imaginava viesse a acontecer.

Dali, via, navegando pela “estrada” do Tejo, algumas poucas “faluas” e “fragatas” de velas “à banda” empurradas pelo vento da barra que lhes facilitava a corrida e a faina do pescado e do pequeno transporte.

Pela janela, à altura das “águas-furtadas” do prédio mais perto do “duque”, conseguia perceber, se a grande doca-seca da “Lisnave” estava recebedora, ou não, do grande petroleiro que, impávido e sereno, esperava, fundeado no Mar da Palha, de proa à maré.

Mesmo entre a escuridão do vinte-e-quatro, conseguia espreitar lá de cima, da janela do terceiro andar, os sorrateiros e cínicos bufos dum lado, e, do outro, os reservistas de lápis azul, que, riscando, os gastavam sempre “a bem da nação!”.

No rescaldo das “Caldas”, via-me, de mancebo a magala em fardamento a verde feito, e de “canhota” a jeito, no meio de terra, que minha não era, com lógica de estúpida guerra que pelas colónias fervia.

Antes, lá teria passado pelo cais da “Rocha Conde D’Óbidos” marchando para entremeada formatura antes de subir à amurada do “Príncipe Perfeito”, “Vera Cruz”, Niassa”, “Infante D. Henrique” ou de qualquer outro “paquete” servidor do império. A vinte e quatro, o parapeito daquela janela do terceiro andar, era o interior da murada dum destes e, de lá, via um “mar”, com o tamanho do que iria atravessar, de lenços brancos num adeus de mães, esposas, namoradas e filhos.


Na entrada dezassete, com o Manel abençoando o “botas” e a fazer figas para que a “primavera-marcelista” ficasse, de vez, outonal ou mesmo invernosa, porque, nos seus atrofiados neurónios, só assim se conseguia ganhar a guerra em Angola.

Atormentava-me, sim! Tinha medo, sim! Mesmo com a segurança que a janela do terceiro andar me dava, vendo de lá o que muito bem queria imaginar, não conseguia desviar a certeza que me desenhavam para o futuro a curto prazo; “Assento-de-Praça”, recruta, especialidade e, ala que se faz tarde, para África. 

De piso era terceiro mas, contando pela entrada da do Alecrim, era segundo sendo que, por ser tão alto, quase adivinhava o que se ia passar na quinta-feira, a vinte-e-cinco; desde o Terreiro do Paço, Ribeira das Naus, Arsenal, Corpo Santo e Bernardino Costa. Cheirava a qualquer coisa…

E, na manhã de quinta-feira, em abril e a vinte-e-cinco, ouvi o Luís Filipe Costa:
 (…) Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas (…)

Silvestre Félix

25 de abril de 2015 

ABRIL E CHUVA

A chuva cai em abril!

Abril deveria ser sempre luz e esperança. Abril deveria trazer sempre; bons ventos, bons casamentos, bons empregos, muita saúde e felicidade!

O cinzento domina este País e a chuva cai em abril!

Destroem-nos de alto-a-baixo e nem abril escapa!

Silvestre Félix

6 de abril de 2015    

AS FLORES QUE ERAM VERMELHAS...


Pelas avenidas, pelas ruas becos e travessas, as espingardas gritavam, continuamente, improvisadas palavras de ordem e as flores, que eram vermelhas, transbordavam de felicidade passando de mãos e mãos poisando nos canos das “getrês” e nas largas bocas das pesadas viaturas dos aderentes regimentos de cavalaria.

Os homens e mulheres só tomavam aquele rumo. A “guarda-de-honra” agora era civil e onde estivesse um “Militar-de-Abril” haviam de estar, à sua volta, dezenas, centenas ou milhares de felizes portugueses. 

«Olha, que coisa mais linda…», se dizia, do nosso País, no outro lado do Atlântico e também o Chico; «…ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal…». E em Abril, Portugal se tornou um mar de esperança.

Quase quarenta de tempo contado em anos a esperança esmorece e a chama está praticamente apagada.

Contudo, a primavera está e as vermelhas que são flores também ainda estão – VIVAS!!

Silvestre Félix

HINO IBÉRICO…


Pela janela daquele terceiro andar conseguia ver o mundo.

Via, como tantas outras vezes já disse, o Tejo desde a ponte até à margem do Montijo e Alcochete. Na correria desalmada das marés, enchentes ou vazantes, acompanhava o vai e vem dos cacilheiros, um ou outro grande petroleiro arranjando direção para se enfiar numa das docas secas da Margueira ou esperando, quietinho, ao largo no grande Mar da Palha pelo lado esquerdo do meu ângulo de visão, ainda uma ou outra vela banda duma velha falua ou de simples bote pesqueiro na chegada ao cais.

Conseguia ver, daquela janela do terceiro andar, o ajuntamento desembocado pelos chegados de comboio e que contavam subir a colina pela do Alecrim de amarelo ou então tomarem lugar no 22, 44, 45 ou 8 da Carris para o miolo da Capital. Vi, porque ainda estava na janela do terceiro andar, os protagonistas da Revolução. A multidão cada vez engrossava mais e os militares entravam na praça vindos da rua Bernardino Costa e Arsenal. O meu mundo, naquele dia e visto da janela do terceiro andar, era da cor da vida, da esperança. Os vivas de apoio invadiram o terreiro ao cais e ascenderam ao Camões e ao Chiado com a velocidade de um sopro porque eu vi e senti desde a janela daquele terceiro andar.

O cais do Sodré e da Ribeira foram testemunhas do que consegui ver da janela daquele terceiro andar. Tudo ia ser possível e não voltava a ser preciso forrar a capa dos livros e esconder a primeira página do vespertino “A República”. Os cravos, ainda naquele dia, iam nascer pelas espingardas e a “Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso ia ser rainha das cantorias da Liberdade e muito tempo depois contado em anos, seria hino revolucionário cantado em toda a Península Ibérica, desde o parlamento no Palácio de São Bento às manifestações nas ruas de Madrid.

Silvestre Félix

AS PORTAS QUE SE FECHAM…


« …Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado. …»

Parte do poema revolucionário “As portas  que Abril abriu” de José Carlos Ary dos Santos que morreu a 18 de Janeiro de 1984, faz hoje 29 anos.

Esta obra do Ary foi escrita em 1975. O PREC fazia o seu conturbado percurso mas era o tempo da esperança…

Todas as homenagens lhe são merecidas!

Silvestre Félix

25 DE ABRIL


Tantos a reivindicar a “posse” do 25 de Abril…

Como se pode querer só para si, qualquer coisa que não é de ninguém e é de todos?

E os cravos vermelhos? Tantos… e em lapelas nunca vistos.
   
Silvestre Félix

O POVO É QUEM MAIS ORDENA!


E o “bufo” recebeu o envelope que continha o pagamento das denúncias do mês de março. Era abril e o “bufo” contava fazer um bom mês em consequência do levantamento dos militares das Caldas.

Mal sabia o “bufo” que acabava de receber o último envelope daqueles que moravam na António Maria Cardoso.

Quando se deitava, antes de adormecer, como se fosse um jogo de adivinhação, imaginava que tortura teria sido aplicada a fulano, a beltrano e por aí fora. Pelas suas contas, durante este mês de “águas mil”, iria atingir a centena de “bufarias”.

Mal sabia o “bufo”, porque era o vigésimo quarto dia do mês, que nunca chegaria a cem denúncias.

Ouviu-se, “E depois do adeus” e a “Grândola Vila morena” e, pela madrugada, enquanto o “bufo” se preparava para assobiar para o lado e abraçar efusivamente o vizinho que antes denunciara, o “mancebo” acordava com as marchas militares que brotavam da telefonia.

E o mancebo ouvia,

e o mancebo pensava,

e o mancebo tentava adivinhar,

e o mancebo perguntou e a telefonia respondeu:

Aqui, posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!

E o mancebo ouviu tudo e gritou:

A GUERRA VAI ACABAR! 
 
Silvestre Félix

25 DE ABRIL SEMPRE!

Até Guimarães fui e, por essas estradas abaixo, voltei!
Rever família e amigos, no berço, em casa me vejo.
Com espírito de Abril e sentimento pascal, coincidência pouco conveniente mas autentica, que a lição dos Capitães continue pelos tempos. Em Guimarães ou na Abrunheira, o tempo de Abril continua vivo e com vontade de assim permanecer.


As portas que Abril abriu não se questionam!


Viva o 25 de Abril!


25 de Abril sempre!


Silvestre Félix

OTELO SARAIVA DE CARVALHO

Otelo Saraiva de Carvalho declarou ontem à Lusa;

«…que hoje em dia não faria a revolução, se soubesse que o país iria estar no estado em que está.»

Não concordo em absoluto com uma afirmação deste tipo. Tenho grande admiração por Otelo e ainda hoje acabei de ler o seu último livro que me enriqueceu o conhecimento sobre o que se passou naquele dia 25 de Abril de 1974.

A Revolução dos Cravos, que Otelo coordenou em termos operacionais, alterou muita coisa que não tem rigorosamente nada a ver com a situação económica e financeira que hoje se vive em Portugal – Fim da Guerra Colonial, final do império com a independência das colónias e fim da opressão e domínio de outros povos, desmantelamento do Estado fascista com o fim da censura e polícia política, instauração das liberdades individuais e coletivas e institucionalização do Estado democrático em todas as suas vertentes, etc., etc.

Otelo Saraiva de Carvalho sempre nos foi habituando, nestes 37 anos, a alguns “pronúncios” polémicos. O seu voluntarismo e a sua espontaneidade têm sido suficientes para desculpar uma ou outra “tirada” mais a despropósito, mas esta é de “bradar aos céus”. Ainda assim, Otelo tem de continuar a ser polémico senão deixa de ser autêntico. Com certeza foi levado pela revolta, que é comum a grande parte dos portugueses neste momento, mas, relendo as suas próprias declarações, já terá concluído que não era bem aquilo que queria dizer.

Um destes dias falarei aqui do seu livro “O Dia Inicial”, que vem mesmo a calhar neste mês de Abril.

Silvestre Félix

CAPITÃO SALGUEIRO MAIA

«Senhores, estamos aqui em nome da Liberdade. É em nome da Liberdade que não faremos justiça por nossas próprias mãos. As pessoas por quem esperam devem abandonar este local em inteira segurança, a fim de serem julgados.» (1)

Gritou o Capitão Salgueiro Maia, duma das janelas do Quartel do Carmo, de megafone na mão.

Era cerca das seis da tarde de 25 de Abril de 1974, o Largo do Carmo a abarrotar de gente que reclama, aos gritos, que lhes seja entregue Marcelo Caetano.

A sabedoria e o bom senso de Salgueiro Maia foram fundamentais para o sucesso desta hora crucial da revolução dos cravos – A rendição de Marcelo Caetano!

O Capitão Salgueiro Maia, que encarnou o espírito mais verdadeiro do 25 de Abril, morreu no dia 4 de Abril de 1992, faz hoje 19 anos.


Silvestre Félix


(Nota (1): Extraído do livro “O Dia inicial” de Otelo Saraiva de Carvalho)

ROMANCE DE UMA CONSPIRAÇÃO de João Paulo Guerra

João Paulo Guerra é um nome e uma voz que conheço desde o tempo do «PBX» e «Tempo ZIP» no antigo Rádio Clube Português. Mais recentemente voz da TSF e, atualmente, da Antena 1.

As ruas e as colinas de Lisboa, da Graça ao Bairro Alto e à Madragoa, as perseguições aos democratas pelas denúncias dos “bufos” e a PIDE e a Legião ao serviço da ditadura. O drama familiar e os traumas de Pedro que havia de ser um dos protagonistas duma das mais belas páginas da história de Portugal: 25 de Abril de 1974!

O autor percorre, com a sua narrativa, um período muito presente para mim – Os antecedentes e o que se seguiu à revolução dos cravos. Identifico-me com Pedro, especialmente com a permanente vontade de não se sentir alinhado, de poder concordar ou discordar quando lhe apetecesse e, muito embora a sua condição de militar, ser, por natureza, um pacifista como fora seu Pai.

O romance de JPG ajuda também a perceber o papel de algumas forças ocultas durante o nosso processo revolucionário e não só! A contra-revolução era muito mais global do que à primeira vista se pensava.

Parabéns ao autor pelo excelente trabalho!

Edição da “Oficina do Livro”, a 1ª em Setembro de 2010.

Silvestre Félix

(Gravura: Capa do livro do site da editora)

VITOR ALVES

Todos os portugueses que festejaram o 25 de Abril, e que acreditaram na verdade dos homens que o tornaram possível, ficaram hoje mais pobres com o desaparecimento terreno de Vitor Alves.

Mais pobres, porque esta sensação de perda dos valores interiorizados naquele dia e nos que se seguiram, cresce e acelera quando um dos principais obreiros da revolução morre.

Vitor Alves, para além da sua operacionalidade antes e durante o dia 25 de Abril, foi uma força importante de moderação nos tempos que se seguiram, optando com outros, e à medida que se iam medindo as influências partidárias, por uma postura central muito difícil de assumir e materializar naquela época.

O Capitão de Abril não estava, de certeza, satisfeito com a situação atual de Portugal.

Quando acima digo “perda” é neste sentido:Deficit externo de dois dígitos, deficit orçamental previsto para 2010 de 7,3%, dívidas soberana e nacional excessivas para a debilitada situação económica, as permanentes ameaças à nossa soberania – hoje económicas, não militares – por forças completamente obscuras ao serviço do grande capital universal e que se sobrepõem a todas as instituições democráticas, a regressão de fato, do nível de vida dos portugueses com uma taxa de desemprego nos máximos históricos e, em consequência de tudo isto e dos interesses anti-comunitários da União Europeia, o Governo do PS – porque se fosse doutra cor partidária era o mesmo – é obrigado a fazer um orçamento altamente recessivo com todos os sacrifícios que isso implica.

Por outro lado, o Capitão de Abril estava de consciência tranquila porque todo o esforço e luta empreendida naquela época, resultou em muitas coisas boas e essenciais para recuperar o caminho certo da nossa história:

A Guerra Colonial acabou, os povos das antigas colónias puderam finalmente ser independentes, a pide foi desmantelada assim como todo a estrutura do Estado da ditadura, foi eleita uma Assembleia Constituinte e elaborada uma Constituição Democrática que, por sua vez, deu lugar a eleições democráticas para o Presidente da Republica, para a Assembleia da República e para as Autarquias, a economia, a pouco e pouco, democratizou-se, deixamos de estar orgulhosamente sós e passamos a fazer parte da família europeia e, à medida que os anos passaram, o sistema democrático foi sendo encarado como o ar que se respira.

Duma forma geral, e por muito que nos queixemos, não há comparação possível entre o Portugal de Abril de 1974 e o de hoje. A Evolução foi a pique. É bom não esquecer que, para além de todos os problemas que aí estão, fazemos parte do conjunto reduzido de Países a que chamam ricos!

Vitor Alves é merecedor de todas as homenagens.

Que descanse em Paz!

Silvestre Félix
(Foto: Expresso Online)

ANGOLA

Angola era, aquando do triunfo da revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal, palco de uma das frentes da Guerra Colonial que o antigo regime português teimava em manter.

Um dos principais objetivos dos revolucionários portugueses e que constava mesmo no programa do MFA, era o fim dos combates e iniciar negociações com os Movimentos de Libertação Nacionais para a autodeterminação e independência de cada uma das Colónias.

As duas primeiras intenções foram pacificamente atingidas mas, a seguir – dada a circunstância de Angola ter três Movimentos de Libertação ativos nas negociações e na ambição de chegarem ao poder – as coisas não foram fáceis, mas isso é outra história.

A data foi marcada e, antes da meia-noite deste dia 11 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi arreada, os últimos representantes da soberania portuguesa deixaram Luanda e, subiu ao mastro, a bandeira nacional de Angola.

Angola não se livrou da guerra com a independência em 1975. Os angolanos continuaram a ouvir os disparos das metralhadoras e os rebentamentos de minas, com os sacrifícios que isso implica, até 2002, ano em que, com a morte do líder da Unita, o confronto chegou finalmente ao fim.

Hoje, Angola é um dos principais Países africanos, com uma taxa de crescimento das mais elevadas, faz parte da “Lusofonia” integrando ativamente a CPLP, é um forte parceiro de Portugal a todos os níveis e, é um dos destinos prediletos dos portugueses para emigrarem.

De 1982 a 2002, fui muitas vezes a Angola e passei lá alguns períodos de dois ou três meses. Senti-me sempre em casa e tenho muitas saudades da terra e dos angolanos que tive o gosto de conhecer.
(Imagens: Wikipédia)

25 DE ABRIL SEMPRE!


“As Portas que Abril Abriu”
de Ary dos Santos
...
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

(Continua)

SBF

(Dos Poemas sobre o 25 de Abril – Link PCP)

A CAMINHO DE ABRIL, NA VÉSPERA… DIZIA O POETA!



(Parte “As portas que Abril Abriu” de Ary dos Santos)
…
Quem o fez era soldado

homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

(Continua)

(Extraído do extraordinário poema “As portas que Abril Abriu” de Ary dos Santos, copiado de «Poemas sobre o 25 de Abril» da net/PCP)

SBF

A CAMINHO DE ABRIL, NA VÉSPERA, O HERÓI!

«Na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, Salgueiro Maia limitou-se a mandar ter o material pronto para qualquer ação, sem no entanto dizer para quê. Não era contudo muito difícil percebê-lo e os oficiais milicianos da sua maior confiança, adivinharam-no.

O entusiasmo posto no trabalho de afinação e preparação dos carros de combate foi tal, que o próprio comandante estranhou, mandou encerrar os Parques e simultaneamente deu alta aos trabalhos.

O pessoal todavia, continuou o seu trabalho, sem barulho, dentro dos próprios Parques, com as portas encerradas.»

(Texto extraído do livro “Origens e Evolução do Movimento dos Capitães” de Diniz de Almeida)

SBF

CAPITÃO DE ABRIL

Naquele Abril revolucionário, todos os problemas se iam resolver, os portões do paraíso na terra estavam escancarados, nunca mais haveria fome, nunca mais haveria guerra, nunca mais haveria PIDE.

“As portas que Abril abriu” não mais se fechariam, os patrões e os empregados haveriam de se abraçar, o general e o soldado haveriam de comer à mesma mesa, o capitalismo e o estado social haveriam de estar juntos na recuperação económica, o político e o normal cidadão haveriam de vestir a mesma camisola.

Portugal levaria a lição ao mundo, e seriamos o povo mais feliz do universo.

A história cumpriu o seu dever e rezou, mas… Como é possível, tanto tempo contado em anos desde a revolução dos cravos, que se descubram inúmeras “portas” que, ou nunca chegaram a ser abertas, ou, depois de abertas, voltaram a fechar-se?

O Artigo primeiro da nossa Constituição diz assim:

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Será que estamos a falar do mesmo País?

“Capitão de Abril, Capitão de Novembro” do Coronel Sousa e Castro, demonstra com muita precisão alguns exemplos do que acima disse.

Sousa e Castro faz um relato factual dos acontecimentos, desde a criação do Movimento dos Capitães em meados de 1973, até ao rescaldo do 25 de Novembro extensivo à revisão Constitucional de 1982, altura em que acaba o Conselho de Revolução.

À medida que dá conta das ações em que interveio ou que conheceu, faz a sua interpretação objetiva e subjetiva, e acompanha com documentos.

O Capitão (à época) Sousa e Castro, fez parte do Grupo dos Nove, que, em pleno Verão Quente de 1975, se uniu em volta dum projeto moderado – Não alinhados com o Partido Comunista nem com a extrema-esquerda, e advogando respeito pelo resultado eleitoral de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte. Embora simpatizando com a ideia de “socialismo democrático”, nunca quiseram (enquanto grupo ou movimento) confundir-se com o Partido Socialista, antes pelo contrário, as relações com a direcção do PS, nem sempre foram calmas.

O Movimento dos Nove, que o autor (e a história) considera vencedor em 25 de Novembro, viria a ter dificuldade em travar a cavalgada de alguns setores militares conservadores que nunca foram entusiastas do que aconteceu em 25 de Abril. Sousa e Castro, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Ramalho Eanes, Franco Charais, Pezarat Correia e principalmente o Presidente da República, General Costa Gomes e ainda outros defensores da mesma linha, foram decisivos para cortar “o passeio” da extrema-direita militar e civil neste Novembro de 1975.

No 36º aniversário do 25 de Abril, aconselho a leitura deste livro que é edição da “Guerra e Paz”, a primeira em Novembro de 2009.

O Coronel Rodrigo Sousa e Castro nasceu em 1944 no Alto Minho.

SBF

NUM DESTES DIAS

Anti - democracia  net de Wilson Ferrer Um dia, passados para lá de cinquenta e cinco, em anos contados, no tempo duma senhora que era outra...