CARTAS DO ANDEIRO…

Passando pelo, ainda, serviço público de televisão, detive-me nos amores de Pedro e Inês.

Há já alguns anos se produziu e transmitiu quando “vacas gordas” se passeavam por todo o lado. Agora, que as vacas emagreceram e só se lhes conhecem ossadas espetadas e olhar mortiço, repõem-se boas lembranças e, neste caso, a mais bela e dramática história da nossa “cronologia” desde a fundação da nacionalidade.

A revisita aos acontecimentos históricos do nosso País ajuda-nos a perceber o nosso fado. A época de Pedro e Inês foi véspera da primeira grande provação da existência da Pátria. De Constância, senhora de Inês e primeira esposa de Pedro, nasceria D. Fernando que, com a sua morte em 1383 sem filho varão e filha Beatriz casada com João I de Castela por forte influência da megera rainha Leonor de Teles, deixaria o reino de Portugal nas mãos dos castelhanos. Qual resistência tipo “que se lixe a troika” os bons portugueses expulsaram a dita Leonor e o Conde Andeiro, ficando com o Mestre de Avis pai da ínclita geração e, por ironia das coisas, também filho do Pedro e doutra que não Inês nem Constância.

Sepultados em Alcobaça, no caminho de Peniche, da ginjinha de Óbitos, da onda de Nazaré e muito tempo antes do conselho de ministros no mosteiro, Pedro e Inês, transpiram o amor incondicional e imparável da nação lusa que resiste mais que todas as outras por essa Europa e mundo a fora. Havemos de continuar, deitando ao chão todos os que aqui estão mas jogam como o Andeiro, com cartas por baixo da mesa…


Em reposição na RTP2, “Pedro e Inês”.

Silvestre Félix

(Gravura: Coroação póstuma de Inês de Castro. Wikipédia)

FAVAS “NÃO” CONTADAS…

Entre, apelos à “união nacional” de má memória e pedidos para que a “Constituição da República” não impeça despedimentos na função pública à laia de barata chantagem, Coelho, o primeiro, inicia um novo paleio para levar uns pontinhos nas autárquicas, e deixar a zero as “favas contadas” já assumidas em caminho “seguro” por adversários mal avisados e portadores de profunda desilusão na maneira de ver intuitiva dos senadores maiores.

Nem estão “no papo”, as autárquicas, para o PS, nem remediadas para o PSD ou coligação à direita. Acho que equilibradas para a CDU e pequeninas para o BE. Premiadas e bem-aventuradas para os bem vindos independentes.


Silvestre Félix

(Foto: Câmara Municipal de Sintra - Paços do Concelho)

A LOUCURA COLETIVA

Está tudo doido, não se tratam e querem arrastar os outros para a loucura.

Nem o Pais está tão bem como alguns membros do governo querem constantemente fazer querer, nem os da oposição podem continuar a pedir eleições antecipadas e demissões de ministros ainda agora empossados.

Como diz o Miguel Sousa Tavares hoje na sua crónica do Expresso, qualquer parecida com – Que os politiqueiros se calem… abalem todos de férias que os portugueses já não os podem ouvir…


Silvestre Félix

Gravura: Parte de Alegoria do Triunfo de Vênus, de Agnolo Bronzino.(Wikipédia)

A HONRA ?? E AS JURAS…

Juram solenemente e por honra, cumprir…

Havendo uma entidade reguladora das juras e de qualidade da honra que por aí se semeia, muito trabalho de “citação” teria e não chegariam os portadores das respetivas notificações.

Sempre estão, os que juram cumprir, prontinhos, para propagandear constantes dúvidas, embalando os desencantos e angústias do sacrificado cidadão português.

A toda a hora, o discurso vazio e monocórdico substitui, abusivamente, o trabalho com conteúdo e essencial para o País se encontrar com os merecidos pergaminhos.

Os políticos desta praça vão perdendo margem de sobrevivência para além da tempestade.

Os que estão fora (estando dentro) preparam-se, sem olhar a meios, para trocarem de posição com os que estão dentro e que, depois, estarão fora e passarão a usar os mesmos argumentos dos primeiros e vice-versa.

Não fazem parte deste círculo os outros que nunca conseguiram o poder porque os eleitores não confiaram nas suas propostas. Razões que a consciência dita e que não pode menorizada.

Tudo isto, todas as juras, toda a honra, todo o paleio e todo o interesse de grupo se torna mais condenável para quem cada vez tem menos emprego, menos ordenado, menos pensão e mais taxas e mais impostos.

E as frotas “topo de gama” continuam…

E O POVO, COMO É QUE FICA?


Silvestre Félix

PEÇAS PARTIDÁRIAS...

Não deixei de ter gosto pela escrita. Não! Deixei sim de ter vontade de escrever sobre a atualidade política. Ainda agora, com a televisão lá ao fundo sem som sintonizada na SIC notícias transmitindo em direto o plenário da Assembleia da República, tenho uma imagem perfeita do que hoje, para mim, representam a maioria das “peças” partidárias – agitam-se, esbracejam, mexem os lábios como se gritassem, mas não dizem nada. É este o triste espetáculo que estes “grupos” têm dado aos olhos dos portugueses.

Ao fim de trinta e nove anos de democracia, é chegado o momento do sistema ser refrescado e de ser dada voz aos que não se revêem no espetro partidário. Propostas de alteração da Lei eleitoral e consequente alteração da composição do conjunto dos deputados da República, têm feito parte de múltiplos programas eleitorais mas nunca foram concretizadas.

Os partidos são a base orgânica da democracia mas o eleitor tem de poder votar e eleger o seu deputado e este, por seu lado, ser responsável perante os seus eleitores. Outras organizações cívicas, sociais, de cidadania ou cidadãos individuais, devem ter acesso à disputa eleitoral e respetiva eleição, desde que cumpram determinados pressupostos.


Silvestre Félix

SEM PRINCÍPIOS...

A afirmação “tudo é e não é”, para além do título do último romance de Manuel Alegre, é uma verdade inquestionável, principalmente quando falamos do “universo” da nossa política partidária. As estrelas maiores dos grupos políticos atuam para plateias cada vez mais indefesas. Fazem-no conscientes que têm de mentir melhor que os papagueadores dos grupos adversários. Do desempenho, depende a vitória ou a derrota nas urnas eleitorais.

O grupo que ganha, que mentiu melhor, logo a posse dada começa a fazer o que muito mais interessa ao grupo e à sua clientela deixando rapidamente para trás o prometido (mentido) ao nos palanques da “sofrida” campanha.

O grupo que não ganhou a governação, depressa continua ou se readapta aquela cómoda posição de dizer e reivindicar o que nega ou não faz, quando está do outro lado, na mais apetecida cadeira do poder.

A formatação destes líderes orgânicos assenta nos mesmos “ensinamentos” (sem princípios), sejam do grupo A, B, ou C sendo que, para atingirem aquele mínimo necessário de “sem vergonhice”, têm de ter muitos anos de treino. 

Eles querem que o jogo seja assim – “tudo é e não é“. A vida vai andando, os grupos amanham-se, o amarfanha-se e o País afunda-se.

O grande António Aleixo já dizia que algum dia «pode o Povo querer um mundo novo a sério». Quando isso acontecer, não há “formatação” que valha nem descaramento que os safe!


Silvestre Félix

O NOSSO BOMBORDO...

Da janela do terceiro andar conseguia ver o mundo e o céu. Também via o “escondidinho” e, movendo os maxilares em seco, saboreava a boa bifana. A toda a hora ouvia o pregão do cauteleiro e o premiado número da “Casa da Sorte”. Daquela janela encarava a porta do “Bensaúde” e, na outra margem, a doca seca da “Lisnave”. Os cacilheiros, as faluas e as fragatas mostravam-se num vai e vem sem fim. Pelo lado dos Remolares apareciam os carregadores da “ribeira” com os hortícolas coloridos e as varinas com os pescados de fresco na costa que ainda era nossa. E as vieirinhas do “Porto de Abrigo”? Do terceiro andar, à janela, enfrentava os estendais de roupa a tapar as vistas para as águas-furtadas. E o digestivo do Brithis que o careca e simpático Oliveira servia com rigor minimalista? E o gravateiro chinês, e o engraxador do Califórnia e o paleio do António ao mesmo tempo que trocava as mãos com o bife à casa e as lulas recheadas? Lá, do terceiro andar, mesmo que não estivesse à janela, adivinhava as tretas atiradas pelo Man’el porteiro metido naquela fardeta cinzenta com direito a boné à polícia de pala em rijo cartão forrado. Sempre queixoso como se toda a gente lhe devesse. Sempre o pior parceiro para a “sueca” no armazém, lá, no terceiro andar, no mesmo da minha janela. O Vicente, eu, o Catarino e o Nunes “babávamos” pelo carvoeiro e as sardinhas assadas. As melhores. E mais tarde, porque antes era menu caro p’ra curta féria, o Rio Grande e o frango assado no espeto e o tinto do Cartaxo também viria a fazer parte do roteiro. Debaixo da do Alecrim, corria a Nova do Carvalho que só acordava lá para a hora de almoço com os neons hesitantes. Os marujos e os magalas sempre animavam a noite e sonhavam com amores perdidos numa enxerga de quarto de lavatório e bidé avulso na pensão contratada.

De braços cruzados no parapeito conseguia ver, de olhos fechados, o outro lado da cidade. O cheiro a combustível e o sonoro das turbinas dos B 747, B 707, B 727, DC 10, etc., etc., desmultiplicando no fundo da pista. O Castelo Branco que mal sabia que outro, muitos anos mais tarde, não acrescentava pergaminhos à graça com nome de digna cidade beirã, com toda a sabedoria do muito tempo contado em anos, lá desenrascava a carta de porte do cliente mais exigente. Em modos de sono primário, a partir da janela do terceiro andar, sentia o piso irregular, que sempre me pareceu estar ao contrário, daquele terminal do edifício dezassete. O Nelson do Aguinaldo desalfandegava e queria sempre o maldito BRI que ia e vinha deduzida a cota para a próxima. O “metro” até ao Areeiro e no primeiro andar do 8 ou 44 no verde da “Carris”. De lá, do terceiro andar bem perto do Tejo a horas certas do relógio da esquina do Duque da Terceira e do outro, do “Brithis Bar”, que anda ao contrário, via a escadaria e a fachada dos anos trinta. Subindo, era por ali que entrava, passava pela tabacaria arrastando o vício num pacote de nicotina e lá seguia o caminho e os tapetes, as malas, e, mais à frente, o hangar, as paletes e os contentores e sempre, até hoje, como se lá estivessem, os saudosos cheirinhos e barulhinhos. 

De qualquer janela dum terceiro andar podia, fechando os olhos, sentir o cheiro de África e da terra moçambicana quando a pista de Mavalane me recebeu pela primeira vez. Muito provavelmente porque o Tejo me guiou pelo ar como se navegando fosse pela frente de Belém e dos Jerónimos e saísse pela mesma barra dos antigos navegadores. Podia ter sido, só não fui conquistador e, antes, conquistado. 

Naquele tempo não sabia mas, a Lusofonia, era, e é, o caminho.

Mesmo duma simples janela dum terceiro andar do Cais do Sodré donde via tudo e mais alguma coisa, em mim morava esperança e crença no que aí havia de vir mas, como se percebe, nunca imaginaria ver uma parada militarista em pose prussiana desfilando pela Ribeira das Naus e formar em conjuntos quadrangulares no Terreiro do Paço. 

Nestes tempos de agora, a tribuna de honra continua a estar numa das alas da Praça mas, a conquista, bem cultivada em laboratório e, ignorando o equestre D. José, traveste-se e apresenta-se de escuro fato, gravata e pasta na mão.   


Silvestre Félix

(Fotos: Imagens google)

NUM DESTES DIAS

Anti - democracia  net de Wilson Ferrer Um dia, passados para lá de cinquenta e cinco, em anos contados, no tempo duma senhora que era outra...