GREVE GERAL

São muitas as razões que legitimam a convocação da greve geral do próximo dia 24.

O rendimento disponível dos trabalhadores portugueses tem vindo a diminuir e, a partir de Janeiro, ainda mais e duma maneira mais acentuada.

Partindo desta dura realidade, existem contudo, três formas de sentir os “cortes” já feitos e os que ainda aí vêm, a saber:

Primeira: Naquela enorme faixa de famílias que já aufere tão pouco – muitas, abaixo do salário mínimo – que qualquer cêntimo que recebam a menos, pode significar um pão a menos na mesa, ou a falta de um medicamento indispensável à cura da doença.

Segunda: Outra faixa de famílias com rendimentos médios e encargos equilibrados que, considerando as quebras anunciadas, podem ter de prescindir ou reduzir: Na ida ao ginásio, ao instituto de beleza, ir jantar fora, passar férias no estrangeiro, lições de equitação e esgrima da(o) filha(o), trocar este ano só um carro em vez de dois, etc., etc.

Terceira: As classes abastadas ou famílias ricas, tanto lhes faz impostos baixos como altos, que não precisam alterar o seu estilo e nível de vida.

Nesta conformidade, e como todos já sabemos, não há dúvida que a crise custa muito mais a uns do que para outros. Por isso lamento, que a comunicação social duma forma geral, mas principalmente as televisões, estejam – a propósito da greve ou das medidas de austeridade – a dar voz, preferencialmente a classes profissionais do segundo nível, ou seja, com vencimentos superiores a cinco ordenados mínimos, fora os extras.

É claro que é difícil aceitar, não poder trocar o carro este ano ou não ir ao estrangeiro de férias, mas caramba, pelo menos sejam discretos.

(Foto: Manif. F. Pública 6.11.10 – DN Online)

SOBERANIA E ESPERANÇA

No terceiro andar, olhando pela janela, conseguia viajar ao futuro.

Mais depressa do que a velocidade das águas do Tejo que, sem hesitações, corriam na direção da barra, desviando-se a seguir do Bugio, a ida ao futuro entusiasmava-me e colocava-me no melhor dos mundos com que alguma vez fosse possível sonhar.

O Outono Marcelista ameaçava permanecer infinitamente e nem a ala liberal conseguia transformar em luz, as nuvens que por aqui pairavam.

E a Guerra continuava!

Daquela janela do terceiro andar, conseguia saudar os do “Bragança” quando subiam os degraus de pedra da do Alecrim ou pela outra janela bem encostada à “minha”. Neste caso – tratando-se de albergue tão ilustre, não fosse pelo Eça do IXX assim tratado nos vários escritos e na “Tragédia da Rua das Flores” que, daqui consigo mirar, não a “tragédia”, mas a rua – dada a circunstância de, em vez de andar para a frente, me inspirar passado, tratei de apurar aqueles momentos mágicos de recolhimento e concentração, para que as idas ao futuro saíssem muito mais certeiras do que as “revisões” em alta ou em baixa das instituições de controlo económico e financeiro, que saltitam por tudo o que é comunicação social e a toda a hora.

Em Alcântara-Mar, a abarrotar de Mães e Pais, Irmãos e Irmãs, Mulheres e Filhos, que, por sua vez, se multiplicavam em lenços brancos marcados pela saudade antecipada. O “Niassa”, apontado ao corredor da barra, separava-se do Cais, e de verde azeitona colorido lá começava a dobrar a ondulação em sintonia com os silvos estridentes assinalando a partida.

A Guerra ainda estava lá!

De Salazar se fez Caetano e da Primavera se fez Outono!

Doze dias depois, outro Cais em África, muita gente mas agora é a chegada. A bordo só fica a esperança no regresso. Fora de bordo está o desconhecido, a ansiedade e muitas vezes o medo e o desespero.

Pela janela do terceiro andar, numa das idas ao futuro em muito tempo contado em anos e a do Alecrim em fundo…

Com intermitências, conseguia perceber as imagens, mesmo foscas, duma SOBERANIA desanimada e indefesa perante um gigante louro de olhos azuis, fêmea q.b. e vestimenta colorida. A servir de ESCUDO, o gigante trazia uma plataforma de coesão que, quando muito bem entendia e porque tinha todo o poder e dele fazia o que queria, a transformava em arma de arremesso, mais conhecida como MERCADO, com um alcance periférico sem limite de distância e vergonha. Embora um pouco encobertos pelo gigante que os protegia, dava para ver, sempre a crescer, os peões que me sopraram chamarem-se JUROS. Estes peões iam avançando no tabuleiro de xadrez que agora via claramente, enquanto o gigante se resguardava entre as TORRES DE BRUXELAS. Os JUROS conseguiram ameaçar as defesas da SOBERANIA que, num último momento, se aguentou e recuperou até algumas linhas no tabuleiro. A resistência está difícil, o XEQUE-MATE pode surgir a qualquer momento mas, enquanto há vida, há esperança!

Naquele terceiro andar, à janela, conseguia ver a continuação da Guerra que matou e estropiou. Conseguia sentir a emoção dos portões de Caxias e de Peniche que se abriram a Portugal. Conseguia sentir o peso dos séculos duma NAÇÃO, tantas vezes ameaçada e outras amordaçada, mas sempre libertada.

Da janela do terceiro andar, vi calarem-se as granadas e as metralhadoras, vi abraços fortes de liberdade e vi o fim da Guerra.

As portas que Abril abriu à SOBERANIA não se fecharão à esperança!

MONSTROS DE SABEDORIA

Os Ex-Ministros das finanças ou Ex-Secretários de Estado das finanças, são, na minha opinião, demasiadas vezes solicitados pela comunicação social a pronunciarem-se sobre a atual situação e o que fariam se fossem agora Ministros.

Todos eles, pelas mais variadas razões, têm responsabilidade na forma como o nosso País tem caminhado, do ponto de vista financeiro, nas últimas décadas. Nenhum se pode pôr de fora, ou melhor, nenhum se devia pôr de fora, mas, a humildade e a modéstia, não fazem parte do dicionário da maioria destas personagens.

Todos foram e são muito bons. A generalidade, se fossem agora Ministra(o)s, tinham solução para todos os nossos males. Este excesso de “competência” “ataca” “monstros de sabedoria” de todo o “arco do poder”.

Tantos “sábios” em bicos de pés!

Tudo o que é demais enjoa!

DONATIVOS = CANDIDATOS

O financiamento oficial dos partidos é, em si, polémico. Em tempo de crise e a credibilidade dos políticos em baixo, o universo da nossa política, decide, mais uma vez, mexer na legislação que regula a entrada de dinheiro nos seus cofres.

Nesta Quarta-Feira, na Assembleia da República, uma nova Lei foi aprovada com os votos favoráveis do PSD, PS e abstenção do CDS e de mais 9 deputados do PS. Os restantes votaram contra. Na “dissidência” no voto do PS, destacam-se António José Seguro, Strech Ribeiro e Vera Jardim que não conhecidos como não alinhados com José Sócrates.

A nova Lei, entre outras coisas mais ou menos discutíveis, tem uma novidade que me parece altamente perigosa e que acentua o critério da capacidade financeira de cada um, na altura da escolha de candidatos para as listas eleitorais, incluindo para Câmaras Municipais, Assembleias Municipais e Assembleias de Freguesia.

Até aqui, só os eleitos podiam fazer donativos oficiais aos partidos. Com a nova Lei, para fazer um donativo legal a um partido, não é necessário estar eleito, basta só que seja candidato oficial numa lista eleitoral desse partido, podendo, até, nunca vir a ser eleito. A partir de ontem, só nas autarquias, os potenciais ofertantes passam a ser mais de 40 mil candidatos.

Não é difícil começarmos a perceber que, “fulano de tal”, conseguiu determinado lugar na lista, porque “entrou” com um donativo para o partido, a atirar para o “gordo”. O outro, o “fulano menos de tal”, embora mais competente, e tudo leva a crer, honesto, não aparece no topo ou nem sequer lá está, porque não tem condições financeiras para avançar com um “bom” donativo, ou seja, faz toda a diferença que o donativo passe de jusante para montante, sendo o ponto de partida a elaboração da lista.

Passa a vigorar a lei do mercado. Tudo depende da oferta e da procura!

Os Deputados que votaram favoravelmente esta nova Lei, prestaram um mau serviço ao País!

(Foto: DN Online)

ATRÁS DE MIM VIRÁ, QUEM DE MIM BOM FARÁ!

Atrás de mim virá, quem de mim bom fará!

Nada mais apropriado do que citar este antigo provérbio, a propósito da participação da ex-líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, no debate parlamentar do OE durante a manhã de hoje. Do que ouvi em direto e do que li posteriormente, concluo que a Senhora usou aquela dose de bom senso e responsabilidade que tem faltado ao seu sucessor e a quem o rodeia.

Nunca “morri” de simpatia por MFL. Esse sentimento tem a ver com a forma, como ela, ao longo dos anos, tem intervindo na política portuguesa, incluindo o mandato à frente do PSD. Por isso mesmo, com a sua saída, acreditei que os interesses partidários iriam passar para segundo plano e, com a nova liderança, seria possível percorrer um caminho sereno e seguro com destino a uma governação competente e estável.

Enganei-me redondamente!

Numa primeira fase, ainda vi um PPC com bom senso e responsabilidade e um Sócrates menos arrogante e dialogante, naquele encontro em São Bento, mas, “foi sol de pouca dura”. PPC abriu as hostilidades e nunca mais parou. Sócrates, como também é seu lema, respondeu e contra-atacou em sucessivas ocasiões e, os portugueses, principalmente desde o Verão, sofrem cada vez que ouvem ou lêem notícias, ou, ainda pior, quando conseguem assistir a um debate parlamentar.

Na verdade enganei-me várias vezes!

Com Manuela Ferreira Leite, não tinha havido tabu em relação à passagem do OE de 2011. Tinha dito mais ou menos assim: “É mau, não é o meu orçamento, mas, em nome do interesse nacional, o PSD não o vai inviabilizar”. Os “mercados” tinham reagido de outra maneira e a situação hoje seria mais favorável, ou seja, Pedro Passos Coelho não foi solução nenhuma e, em vez disso, está a ser o problema!

(Foto: DN Online)

O NOSSO REGIME

Assistindo ao debate parlamentar de hoje, com o OE de 2011 em cima da mesa, percebe-se bem, que, qualidade é uma característica que não abunda naquela “casa da democracia”.

Mário Soares, no seu habitual artigo do Diário de Notícias de hoje, aborda a questão do regime. Diz ele: “Alguns analistas que não gostam particularmente do 25 de Abril têm insistido muito – nos órgãos de comunicação social – que o nosso regime está esgotado e em crise.”

Tal como Mário Soares, eu também acho que o nosso regime não está esgotado, antes pelo contrário, precisa de algumas reformas que “refresquem” a sociedade e, ao mesmo tempo, que se consolide uma tendência segura de melhoramento das condições de vida dos portugueses. Infelizmente a austeridade não deixa, e não sabemos quantos mais anos teremos que esperar para recuperarmos o que agora estamos a perder.

A crise atual é financeira, foi importada e, amplificada em virtude das nossas deficiências estruturais. E, esses problemas que vêm muito de trás – reposição do nosso tecido produtivo, na agricultura, nas pescas, na reparação e construção naval, nos portos e transportes marítimos, na reparação e construção de equipamento circulante e não, de caminho de ferro, a par da investigação e desenvolvimento de todas as componentes de energia renovável, investigação, desenvolvimento e produção de novas tecnologias, etc. – para serem corrigidos, precisam de muita competência e, com os atuais atores (no PS e PSD), não tenho motivos para acreditar que exista essa capacidade.

O TERRAMOTO

“Quase todos os Palácios e igrejas grandes foram rachados ou abateram em parte e poucas casas ficaram em estado de continuarem a ser habitadas. Todas as pessoas que não foram esmagadas mortalmente pela queda dos edifícios, correram para os largos e para as maiores praças. Aqueles que estavam mais perto do rio, fugiram para a beira da água, procurando salvar-se em botes ou qualquer outra coisa em que fosse possível flutuar. O povo corria e gritava chamando para os navios que fossem em seu socorro mas, enquanto a multidão se juntava à beira do rio, a água elevou-se a uma tal altura que invadiu e inundou a parte mais baixa da cidade, aterrorizando tanto os já horrorizados e míseros habitantes que mesmo aqui de bordo podíamos ouvir os seus gritos terríveis e via-se a multidão correndo de um lado para o outro completamente desorientada, convencida de que tinha chegado o fim do mundo, para depois cair de joelhos implorando o auxílio de Deus Nosso Senhor!”

Este texto é parte do relato de um Inglês que tinha entrado a barra do Tejo e assistiu ao terramoto de 1 de Novembro de 1755 de dentro do seu navio no rio frente a Lisboa.

Faz hoje 255 anos que Lisboa foi arrasada pelo terrível terramoto seguido de um enorme maremoto, hoje, correntemente designado por tsunami.

O terramoto, de magnitude 9 na escala de Richter, para além de Lisboa, atingiu também fortemente todo o litoral Algarvio e vários outros locais no País. Em Lisboa as vítimas terão andado entre as 20 e 40 mil, que sucumbiram, primeiro à derrocada dos edifícios, depois aos fogos que alastraram a cidade e ainda, afogados pelas ondas gigantes de mais de 10 metros que atingiram as partes mais baixas de Lisboa.

Preciosidades artísticas e literárias desapareceram, soterradas ou queimadas. Ruíram o Paço da Ribeira com a magnífica biblioteca que D. João V enriquecera, o teatro da ópera, o Palácio da Corte Real com todos os principais arquivos da administração do Reino, visto ser este o Paço-Sede de Portugal, O Castelo de S. Jorge, o arquivo histórico da Torre do Tombo, Catedrais, Basílicas, Igrejas, hospitais. Nos arquivos perderam-se testemunhos únicos das descobertas, nomeadamente registos das viagens de Vasco da Gama, de Cristovão Colombo, etc ., etc.

O Terramoto de 1755 foi o fim de um de ciclo de grande reorganização do Estado, que corresponde aos primeiros cinco anos do reinado de D. José I e da crescente intervenção de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

O que conhecemos hoje por “Baixa Pombalina” corresponde à reconstrução orientada pelo Marquês de Pombal. Estes novos edifícios foram construídos já com proteção anti-sísmica, uma inovação para a época.
(Dicas: História de Portugal - José Hermano Saraiva)

NUM DESTES DIAS

Anti - democracia  net de Wilson Ferrer Um dia, passados para lá de cinquenta e cinco, em anos contados, no tempo duma senhora que era outra...