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A VER NAVIOS...


À medida que os portugueses da média para baixo, empobrecem, os da média para cima vão tendo mais marcas de luxo a instalarem-se na Avenida da Liberdade da nossa Capital.

Agora é a vez duma mundialmente famosa e rica joalharia abrir a sua loja com um investimento de 10 milhões de euros. Cliente alvo, para além do português rico, os turistas brasileiros, angolanos e chineses.

A nós, os da média para baixo, que nos deixem admirar as montras… temos muita prática de só olhar…

desde Alcácer Quibir que “estamos a ver navios”.  

Silvestre Félix

QUANDO LISBOA TREMEU de Domingos Amaral


O terramoto de 1 de Novembro de 1755 destruiu parte considerável do País e, principalmente, Lisboa. A cidade capital do Império foi arrasada três vezes por outros tantos elementos diferentes; A terra que tremeu e a deitou ao chão, o mar e o rio que a inundou e, que no “reverso”, até os destroços lhe roubou, e o fogo que o resto ardeu e os moribundos asfixiou.

O romance que é histórico, “Quando Lisboa Tremeu” de Domingos Amaral, transporta o leitor para o meio da tragédia que se abateu sobre a cidade e seus habitantes. Tudo foi destruído incluindo a maior parte dos testemunhos históricos de Portugal.

O autor “extrai” algumas personagens que se cruzam naqueles dias a seguir ao terramoto e descreve-nos, duma forma clara, o fanatismo religioso protagonizada pelo repelente padre Malagrida e pela odiada inquisição. Por outro lado e em oposição a um poder real detido pela igreja, dá-nos uma versão, nem sempre positiva, do homem Sebastião José de Carvalho e Melo mas que, no seu papel de ministro e líder numa altura tão dramática, fez sobressair as suas qualidades de Estadista e merecedor dos títulos que o Rei lhe ofereceu. Não tenhamos dúvida que o Marquês de Pombal foi o grande obreiro da recuperação, reorganização e reconstrução de Lisboa.

Domingos Freitas do Amaral nasceu em 1967 na cidade de Lisboa, é escritor, jornalista e diretor da revista GQ.

Adquiri a edição de bolso da BISLEYA de Março de 2012 muito acessível à carteira.

Silvestre Félix

(Gravura: Capa do livro no site da editora)

AO LIXO COM AS AGÊNCIAS DE RATING!

A atitude de Rui Rio, Presidente da Câmara Municipal do Porto, em relação ao comportamento das agências de rating é clara e enérgica. Não renovou o contrato com a Fitch porque «tem dificuldade em trabalhar com quem não considera sério.»
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, também reagiu “no mesmo comprimento de onda”.
Muito admirado fiquei com a conformidade com que o Presidente da Câmara do meu Concelho de Sintra reagiu ao “corte” de rating por parte da Moody’s.
Acho que, duma maneira cirúrgica e bem concertada, as várias entidades que pagam anualmente milhões a estas três agências de rating, deviam fazer como Rui Rio.




Silvestre Félix

A MESMA VERDADE!

Pela janela do terceiro andar posso ver o mundo espelhado nas águas do Tejo, na perspectiva que me apetecer, da vazante ou da enchente. Mais do que isso, é a capacidade do “Cacilheiro” que transporta o tempo sempre muito bem contado e pesado, não vá o diabo tecê-las.

Galgando lá para a frente, mesmo pela janela do terceiro andar, não consigo ver com a mesma clareza as imagens muito coloridas e com os contornos bem vincados. Agora, com muito tempo contado e transportado, tudo está envolto em neblina sem se saber onde é o princípio e o fim.

Neste sítio, depois da contagem, deixaram de chamar ao pagamento do trabalho, “féria” ou “jorna” e passaram a dizer-me que é “ordenado” ou “vencimento”. Qual é a diferença? Não será a mesma coisa?

Se calhar não!

Aqui e agora, o que se diz antes do tempo contado pode não ser a mesma coisa que se diz depois do tempo contado. É como se vê espelhado na correnteza do Tejo:

Nas mesmas águas se lêem imagens distintas, consoante sobem ou descem. O que é verdade num momento é mentira noutro!

Daquela janela do terceiro andar a um passo (de gigante) das águas-furtadas,

via sempre a mesma verdade!

SBF

PRIMAVERA PROMETIDA

Olhando pela janela do terceiro andar em dias de luz lisboeta intensa de Primavera prometida, conseguia medir o tempo em horas, marcando, em linhas verticais, a passagem do Sol. Primeiro de manhã, beijando o estuário do Tejo começando pelo Mar da Palha até à direção de Cacilhas, depois, por cima das águas-furtadas e, por último e pela direita, lá se escondia atrás dos prédios.

Na janela do terceiro andar, ouvindo o “telim-telim” do amarelo que subia e descia a do Alecrim, sentindo e adivinhando os idos e entrados no Bragança, o meu peito ofegava e enchia-se de luz porque a Primavera ainda podia vir. O “Cacilheiro” que vem e a “Falua” que vai, completam a cena da tela cheia de cor e vida prometida.

Até o da Terceira que era Duque e antes de Vila Flor e se empenhou na empresa para recuperação da Constituição Liberal de 1822 em nome do Regente, Imperador dos Brasis e Rei de Portugal batizado de Pedro umas vezes primeiro outras quarto, mas sempre o mesmo, até esse… naquela posição de combatente depois da miguelada e vilafrancada absolutista e reacionária. Até ele teve a sua Primavera e admira e é admirado por todas as janelas da Praça e também pela do terceiro andar.

Até o Bernardino Costa, herói Bombeiro da Cidade e, por isso, com muita coragem, consegue abraçar o bom, o mau e o assim-assim, destes quarteirões, das gentes em vai e vem p’rós lados dos “pouca-terra, pouca-terra” mais o Tejo que corre sempre cheio depressa na vazante, não vá a Primavera chegar, até para lá de Belém e de Pedrouços até à Barra depois de passar o Bugio.

À mesma hora, diziam que o ditador de botas estava a dar o último suspiro!

No terceiro andar, pela janela virada ao Sol, eu, por momentos, horas e dias, acreditei que era Primavera, mas não veio, ficou ainda Outono e Inverno durante muito tempo contado em anos… E os lenços brancos continuaram a acenar…a acenar…e a multiplicarem-se sem parar…acenavam, acenavam e foram… e mataram e morreram!
(Imagem: Desembarque de militares portugueses em Luanda - 1961. Internet)
Silvestre Félix

TOLERÂNCIAS DE PONTO

As tolerâncias de ponto concedidas pelo Governo a propósito das mais variadas situações, está a tornar-se um vício. Em circunstâncias normais já é um péssimo hábito, em tempo de crise é descabido e contraditório com todos os sacrifícios impostos pelo mesmo Governo.

A realização da cimeira da NATO em Lisboa vai com certeza quebrar algumas rotinas mas, daí a haver necessidade que os funcionários públicos fiquem em casa, porque é isso que vai acontecer, a distância é grande.

Melhor está o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, (CLICAR) que, resistiu às pressões e recusou a tolerância de ponto. O Presidente da Autarquia lisboeta está muito mais próximo da sociedade real do que os burocratas do Poder Central.
(Foto e Link: Económico Online)

SOBERANIA E ESPERANÇA

No terceiro andar, olhando pela janela, conseguia viajar ao futuro.

Mais depressa do que a velocidade das águas do Tejo que, sem hesitações, corriam na direção da barra, desviando-se a seguir do Bugio, a ida ao futuro entusiasmava-me e colocava-me no melhor dos mundos com que alguma vez fosse possível sonhar.

O Outono Marcelista ameaçava permanecer infinitamente e nem a ala liberal conseguia transformar em luz, as nuvens que por aqui pairavam.

E a Guerra continuava!

Daquela janela do terceiro andar, conseguia saudar os do “Bragança” quando subiam os degraus de pedra da do Alecrim ou pela outra janela bem encostada à “minha”. Neste caso – tratando-se de albergue tão ilustre, não fosse pelo Eça do IXX assim tratado nos vários escritos e na “Tragédia da Rua das Flores” que, daqui consigo mirar, não a “tragédia”, mas a rua – dada a circunstância de, em vez de andar para a frente, me inspirar passado, tratei de apurar aqueles momentos mágicos de recolhimento e concentração, para que as idas ao futuro saíssem muito mais certeiras do que as “revisões” em alta ou em baixa das instituições de controlo económico e financeiro, que saltitam por tudo o que é comunicação social e a toda a hora.

Em Alcântara-Mar, a abarrotar de Mães e Pais, Irmãos e Irmãs, Mulheres e Filhos, que, por sua vez, se multiplicavam em lenços brancos marcados pela saudade antecipada. O “Niassa”, apontado ao corredor da barra, separava-se do Cais, e de verde azeitona colorido lá começava a dobrar a ondulação em sintonia com os silvos estridentes assinalando a partida.

A Guerra ainda estava lá!

De Salazar se fez Caetano e da Primavera se fez Outono!

Doze dias depois, outro Cais em África, muita gente mas agora é a chegada. A bordo só fica a esperança no regresso. Fora de bordo está o desconhecido, a ansiedade e muitas vezes o medo e o desespero.

Pela janela do terceiro andar, numa das idas ao futuro em muito tempo contado em anos e a do Alecrim em fundo…

Com intermitências, conseguia perceber as imagens, mesmo foscas, duma SOBERANIA desanimada e indefesa perante um gigante louro de olhos azuis, fêmea q.b. e vestimenta colorida. A servir de ESCUDO, o gigante trazia uma plataforma de coesão que, quando muito bem entendia e porque tinha todo o poder e dele fazia o que queria, a transformava em arma de arremesso, mais conhecida como MERCADO, com um alcance periférico sem limite de distância e vergonha. Embora um pouco encobertos pelo gigante que os protegia, dava para ver, sempre a crescer, os peões que me sopraram chamarem-se JUROS. Estes peões iam avançando no tabuleiro de xadrez que agora via claramente, enquanto o gigante se resguardava entre as TORRES DE BRUXELAS. Os JUROS conseguiram ameaçar as defesas da SOBERANIA que, num último momento, se aguentou e recuperou até algumas linhas no tabuleiro. A resistência está difícil, o XEQUE-MATE pode surgir a qualquer momento mas, enquanto há vida, há esperança!

Naquele terceiro andar, à janela, conseguia ver a continuação da Guerra que matou e estropiou. Conseguia sentir a emoção dos portões de Caxias e de Peniche que se abriram a Portugal. Conseguia sentir o peso dos séculos duma NAÇÃO, tantas vezes ameaçada e outras amordaçada, mas sempre libertada.

Da janela do terceiro andar, vi calarem-se as granadas e as metralhadoras, vi abraços fortes de liberdade e vi o fim da Guerra.

As portas que Abril abriu à SOBERANIA não se fecharão à esperança!

O TERRAMOTO

“Quase todos os Palácios e igrejas grandes foram rachados ou abateram em parte e poucas casas ficaram em estado de continuarem a ser habitadas. Todas as pessoas que não foram esmagadas mortalmente pela queda dos edifícios, correram para os largos e para as maiores praças. Aqueles que estavam mais perto do rio, fugiram para a beira da água, procurando salvar-se em botes ou qualquer outra coisa em que fosse possível flutuar. O povo corria e gritava chamando para os navios que fossem em seu socorro mas, enquanto a multidão se juntava à beira do rio, a água elevou-se a uma tal altura que invadiu e inundou a parte mais baixa da cidade, aterrorizando tanto os já horrorizados e míseros habitantes que mesmo aqui de bordo podíamos ouvir os seus gritos terríveis e via-se a multidão correndo de um lado para o outro completamente desorientada, convencida de que tinha chegado o fim do mundo, para depois cair de joelhos implorando o auxílio de Deus Nosso Senhor!”

Este texto é parte do relato de um Inglês que tinha entrado a barra do Tejo e assistiu ao terramoto de 1 de Novembro de 1755 de dentro do seu navio no rio frente a Lisboa.

Faz hoje 255 anos que Lisboa foi arrasada pelo terrível terramoto seguido de um enorme maremoto, hoje, correntemente designado por tsunami.

O terramoto, de magnitude 9 na escala de Richter, para além de Lisboa, atingiu também fortemente todo o litoral Algarvio e vários outros locais no País. Em Lisboa as vítimas terão andado entre as 20 e 40 mil, que sucumbiram, primeiro à derrocada dos edifícios, depois aos fogos que alastraram a cidade e ainda, afogados pelas ondas gigantes de mais de 10 metros que atingiram as partes mais baixas de Lisboa.

Preciosidades artísticas e literárias desapareceram, soterradas ou queimadas. Ruíram o Paço da Ribeira com a magnífica biblioteca que D. João V enriquecera, o teatro da ópera, o Palácio da Corte Real com todos os principais arquivos da administração do Reino, visto ser este o Paço-Sede de Portugal, O Castelo de S. Jorge, o arquivo histórico da Torre do Tombo, Catedrais, Basílicas, Igrejas, hospitais. Nos arquivos perderam-se testemunhos únicos das descobertas, nomeadamente registos das viagens de Vasco da Gama, de Cristovão Colombo, etc ., etc.

O Terramoto de 1755 foi o fim de um de ciclo de grande reorganização do Estado, que corresponde aos primeiros cinco anos do reinado de D. José I e da crescente intervenção de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

O que conhecemos hoje por “Baixa Pombalina” corresponde à reconstrução orientada pelo Marquês de Pombal. Estes novos edifícios foram construídos já com proteção anti-sísmica, uma inovação para a época.
(Dicas: História de Portugal - José Hermano Saraiva)

LISBOA = AL-USHBUNA, EM 1147



“…D. João Peculiar começou a preparar o sermão decisivo. Consciente do que os esperava a todos, achou que devia aos guerreiros, aos portugueses, aos cristãos de Lisboa, aos inimigos muçulmanos, ao mundo e talvez ao próprio Deus, uma explicação prévia. …continua a ecoar o sermão do arcebispo de Braga… “ (1)

Foram 10 dias de combate intenso e, “…quando a Porta do Mar se abriu, a 25 de Outubro, o arcebispo de Braga, D. João Peculiar, entrou à frente, com a bandeira da Cruz de Cristo. Seguiram-no o bispo do Porto, com o rei e Sahério de Archelles. Mas já centenas de soldados se tinham introduzido na cidade pela brecha da muralha….” (1)

Neste dia 25 de Outubro de 1147, depois de uma longa batalha, em que se envolveram, a pedido do nosso Rei, cruzados de passagem pela costa portuguesa em 164 barcos a caminho da Terra Santa e originários da Flandres, Inglaterra, Normandia e Alemanha (também designados colonienses de Colónia), D. Afonso Henriques, consegue finalmente conquistar al-Ushbuna (nome árabe da cidade) aos Mouros.

O preço, em vidas humanas, foi muito alto. Os mortos e estropiados de um lado e do outro foram muitos. No final, os Mouros foram derrotados e a cidade passou a fazer parte de Portugal cristão. O herói mais conhecido da batalha de Lisboa é Martim Moniz. Diz a lenda que Martim ter-se-á deixado entalar numa das portas da cidade, deixando-a aberta com seu corpo e, permitindo assim, que as forças portuguesas entrassem muralhas a dentro.

D. Afonso Henriques toma posse oficial da cidade a 1 de Novembro seguinte e, em 1179, é dado foral a Lisboa, ao mesmo tempo que vai retomando o dinamismo que já tivera quando era al-Ushbuna. O r
io Tejo e o seu porto seguro, iria transformar-se num importante entreposto comercial a meio caminho da rota Mediterrâneo – norte da Europa. Pela sua posição estratégica, foi promovida a capital do reino em 1255 e assim se manteve até ao final da monarquia, e depois, da mesma forma, continuou capital da república.

A circunstância leva a que, tudo de bom e de mau que tenha acontecido em Portugal, por Lisboa tenha passado. Foram as epidemias cíclicas que dizimaram milhares de lisboetas ao longo dos séculos. Os terramotos, que foram muitos e grandes, embora só nos lembremos do de 1755 por ser o mais recente e um dos mais devastadores. O domínio de Castela durante 60 anos (1580-1640), a presença das tropas napoleónicas na época das invasões francesas (1807-1813), mas também a glória da época dos descobrimentos. Foi, conforme reza a história, a fase mais rica e esplendorosa da capital do reino.

Hoje, Lisboa é uma grande metrópole da Europa. Cidade moderna que não fica nada atrás da grande maioria das grandes cidades do mundo. Com os seus problemas, como o todo do País, mas, tem tudo para nos orgulharmos da nossa capital.

(Fotos: Wikipédia e Net – (1) Trechos do livro de Paulo Moura “1147 – Tesouro de Lisboa” da Esfera dos Livros)

FORMULA UM DA AVIAÇÃO

Muitas vozes se levantaram cedo de mais, para levarem a água ao seu moinho, na opção da Red Bull mudar a etapa portuguesa, de Porto e Gaia para Lisboa.

Até o JPP teve a veleidade de, na quadratura do círculo, acusar o A. Costa duma série de “coizinhas” a propósito da questão.

Pois, ainda hoje, a organização da prova deu uma conferência de imprensa, explicando todas as razões que os levaram a trocar o Douro pelo Tejo. Tem tudo a ver com as limitações, provavelmente físicas/espaço, que a pista do norte apresentava.
Está assim explicado. Ninguém roubou nada a ninguém. O Porto, continua “lindo”, e os queixosos do costume que aprendam a estar calados quando devem.

SBF
(Notícias e foto: Diário Económico Online)

OBRAS NO TERREIRO DO PAÇO EM LISBOA



Na sequência da providência cautelar apresentada pelo ACP, o Tribunal Administrativo de Lisboa, mandou parar as obras da Câmara Municipal de Lisboa no Terreiro do Paço.

A este propósito, fiz o seguinte comentário no seguimento da notícia publicada no SAPO.

“Mas que é isto? Agora, qualquer coisa com que não se concorde, toma lá uma providência cautelar! Não vai haver eleições daqui a 3 ou 4 meses? Até lá, deixem-nos trabalhar legitimados com o voto que receberam. Agora, este mesmo tribunal, quanto tempo vai demorar para resolver o problema?
É certo e sabido que vamos ter mais um estaleiro parado por muito tempo.”

SBF
(Foto: Notícia Sapo)

ROSÁRIO DE MARIA II



Daquela janela do terceiro andar via Maria pelas verdes águas furtadas às telhas cor de barro num cúmplice olhar. Pela direita, ao longo dos carris dos amarelos, a do alecrim acabava num largo de Camões e Chiado com a ilusão de óptica de afunilamento.

E a Maria entre o recife dos bábás e a brasileira dos natas únicos do cais do sodré, e lá caminhávamos, lado a lado, pela 24 de Julho até à junqueira em estudo da Dona Maria Amália. Mais tarde, ao contrário, com o poente atrás, lá regressávamos muito devagar, o mais devagar possível, com toques leves na mão leve, e os lábios rosados de rosário menina. Eu, também menino, via tudo na frente cor-de-rosa, sempre daquela janela do terceiro andar e o Tejo que levava de Alcântara e de Santos os soldados p’ra guerra. Eu, ainda menino, daquela janela do terceiro andar, sentia o tempo a correr, sem nunca saber se os anos iam passar depressa demais. E a rosário ficava lá nas verdes águas furtadas, e os lenços brancos das mães, das avós, das noivas, das mulheres, acenavam como se levassem com eles a saudade e a promessa de voltarem.

E eu, ainda menino, via a rosário de Maria e a paixão subia, subia, e sentia o tempo a correr e não sabia quando a guerra ia acabar.

SBF
(Foto: Av 24 de Julho e o mercado da Ribeira è direita - Google)

ROSÁRIO DE MARIA


Daquela janela do terceiro andar, via o rio à esquerda chapado nos estaleiros e docas secas em Cacilhas, com letras muito grandes “Lisnave”, orgulho do regime em “primavera” corrida com fim já não muito longe. Recortando ainda esta visão de “esquerda” (para o Tejo), a estátua no meio da praça, que todos dizem - Cais do Sodré, mas é do Duque da Terceira, esta ilha dos Açores, e este Duque, companheiro de armas do quarto D.Pedro, primeiro do Brasil, que daquele grupo central do arquipélago navegou até ao continente e desembarcou na “Invicta” para acabar de vez, em nome do quarto D. Pedro e primeiro do Brasil, com a aventura absolutista do ditador primeiro D. Miguel, em conluio com a mãe Dona Carlota Joaquina, dos dois D. Pedro e D. Miguel.


Daquela janela do terceiro andar via e ouvia os amarelos que, ao passarem sobre os carris, guinchavam e rolavam em direcção ao Camões a subir ou a descer em direcção à dita praça que já foi terreiro do cais e agora do Duque. Os amarelos tinham outras cores vistosas de publicidade e os pendurados davam ainda mais “gosto” ao vai e vem e ao som único do T’liiim! T’lão! Dos amarelos da Carris.


Daquela janela do terceiro andar via, os que entravam e saiam da estação dos comboios “pouca – terra – pouca - terra” da antiga primeira ou segunda classe, não do comboio mas da escola primária de assentos com nome de carteira em peça única com tinteiro para a caneta de tinta – permanente. Reguadas e palmatórias com ponteiro de cana – da – Índia eram ferramentas do “ensinador” oficial.


Daquela janela do terceiro andar via, para o meu lado direito de quem sobe, a entrada para o velho hotel Bragança que já era para o Eça, Bulhão Pato e outros famosos do dezanove desde a contagem depois de Cristo em séculos.


Daquela janela do terceiro andar via, todos os dias e a toda a hora, mesmo à frente do outro lado da, do alecrim, as águas – furtadas que “furtavam” o meu sossego, em sonho constante de rosário de Maria com respeito e de contido desejo à medida da verde idade. Logo de manhã, todos os dias, aquele percurso rotineiro pela Bernardino Costa, largo do Corpo Santo a do Arsenal pelo Município até ao Terreiro, este do Paço. Depois a volta, a respiração ofegante, as pernas a tremerem, a mão quando toca vira choque como se fosse electricidade, ela a corar sempre no meu olhar. O tempo passou contado em muitos anos. Rosário de Maria cheia de amor disponível, e que deixei no meio daquele Verão quente que na história será “ PREC”.


E o Cacilheiro zarpa do cais do sodré para a outra margem, e tanta gente, e depois vem, e eu, o vejo sempre de lá para cá e de cá para lá, daquela janela do terceiro andar.


SBF
(Foto: Cais do Sodré - google earth)

NUM DESTES DIAS

Anti - democracia  net de Wilson Ferrer Um dia, passados para lá de cinquenta e cinco, em anos contados, no tempo duma senhora que era outra...