REGIONALIZAÇÃO

A ausência de partilha e descentralização do poder é a grande falha do nosso regime democrático. Está aqui, nesta constatação, provavelmente a razão mais consistente para justificar o nosso fracasso económico como País e o consequente abandono de vastas zonas do interior de norte a sul do território.

Mais uma vez encontramos a responsabilidade da situação, nos partidos no arco de poder. Têm querido manter, por todos os meios, a exclusividade do governo centralizado. Não nos esqueçamos que mesmo no ano em que Guterres levou a regionalização a referendo, uma parte considerável do PS e do Governo, não estava com o sim.

Não restarão muitas dúvidas que o atual modelo económico está esgotado e, qualquer que seja a alternativa vai necessariamente passar pela regionalização. Não percam tempo com referendos, mapas polémicos e artificiais e considerem como aceitáveis as cinco regiões-plano existentes: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.

Eu não fiquei nada admirado com a retirada da regionalização da agenda de Sócrates. Tem tudo a ver com o homem e com a postura do Governo. O PS já tinha muitos problemas para resolver e agora tem mais outro porque a questão não é pacífica, é mesmo fraturante.

Silvestre Félix

ENSINAMENTOS DO “BOTAS”

A mim, o que me sabia mesmo bem era o bitoque. Havia dias que escolhia outra coisa só para variar, nunca para substituir o bitoque. Sai um bitoque especial! Gritou o Marinho para a cozinha. Acompanhava com uma imperial especial de corrida tirada pelo António que, naquela 5ª feira, e desde que me sentei ao balcão há um quarto de hora, já discutiu com o Chico aí uma dúzia de vezes.

Ao meu lado direito, estava o Artur Caparica que continuava preocupado com a sensação de andar a ser seguido por um gajo de fato e chapéu de abas. No mesmo dia de manhã, sem ninguém por perto, tinha-me contado que, com um primo, estava a pensar dar o salto para França para não ir à tropa. Deu-me a entender ter a certeza de não querer ir para a Guerra e, a única solução, era pirar-se daqui para fora.

À luz daquela janela do terceiro andar, li no Diário de Notícias que, amanhã, num qualquer dia e mês de 1973 mas de certeza a uma 6ª feira, levantaria ferro do cais da Rocha Conde de Óbidos o navio “Niassa” com militares portugueses com destino a Moçambique. Acrescentava ainda a notícia que, "a defesa daquela parcela do território nacional, como o iam fazer estes valorosos soldados, sargentos e oficiais, era um desígnio patriótico a que nenhum português se pode furtar”.

Os sucessores do “botas” continuavam fiéis aos seus ensinamentos.

Na 6ª feira o Caparica não apareceu ao trabalho e o mesmo aconteceu na semana seguinte. Da janela do terceiro andar, olhando para Cacilhas e Almada, tentava imaginar o que lhe teria acontecido. Estará na cidade luz? Terá corrido tudo bem?

Verão de 2010 longe daquela janela do terceiro. «De dentro dum Mercedes 280, saiu o tal gajo de fato e chapéu, agarrou-me e atirou-me para o banco de trás onde estava outro. Arrancaram em velocidade moderada, subiram a rua do Alecrim, viraram à direita para o Chiado e meteram pela rua António Maria Cardoso. Percebi que estava na pide. Perguntas e mais perguntas, sem dormir, bom, o resto já se sabe. Pareceu-me que se passou dois dias e Caxias a seguir. Seis meses depois assentei praça e mais sete meses, estava na Guiné. Foi uma mina anti-pessoal e um trambolhão na vida.»

Era quase uma hora e o “Califórnia” estava a encher. Ao balcão já não havia lugares vagos e as mesas estavam todas ocupadas.

(Nomes e situações ficcionadas)

Silvestre Félix

POVOS DO MAGREBE

Os povos do Magrebe vão continuar a não dar descanso aos ditadores. A situação na Líbia é explosiva e está à beira de um banho de sangue porque o coronel, filhos e seguidores, escolheram o pior caminho para responderem aos contestatários.

Khadafi está a reafirmar-se como um verdadeiro sanguinário. Já se conhecia a sua índole mas, o ocidente readmitiu-o na roda de interlocutores a pretexto da sua suposta postura anti-Bin Laden.

A incerteza do que se vai passar nos próximos tempos em toda a região, está a criar uma nova ameaça para a Europa. É previsível que se desenvolva uma ou várias correntes de imigração nos países costeiros do Mediterrâneo com proveniência de todo o Magrebe, com todas as consequências que daí advêm.

Os tempos não vão melhorar. A Europa continua a não estar preparada para responder a estas contrariedades. Cada obstáculo que surge, mais se percebe que a Europa unida é uma miragem.

Silvestre Félix

A RTP MAIS POBRE!

O José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa são dos melhores profissionais da nossa comunicação social. A RTP perdeu-os. Principalmente o JAC, desde que tomou posse como diretor de informação, nunca mais lhe deram tréguas sobre os tempos de imagem e notícia atribuídos aos partidos da oposição. Um profissional deste gabarito deve ter mais com que se preocupar. Não pode estar sujeito à contagem dos minutos de uso do ecrã que o aparelho deste ou daquele partido fez.

O constante escrutínio a que estes profissionais na RTP são submetidos, é incompatível, numa grande parte das vezes, com o exercício da profissão.

Ainda por cima, num destes dias, os seus ordenados e subsídios, apareceram esparramados na imprensa. Como se nas concorrentes privadas os ordenados não fossem iguais ou ainda maiores.

A RTP fica mais pobre e, neste caso, a TVI melhora significativamente.

Silvestre Félix

PRATELEIRA DE LIVROS

“A Casa-comboio” de
Raquel Ochoa

A jovem escritora Raquel Ochoa, vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2009 instituído pela Estoril-Sol, conseguiu, através do seu primeiro romance – A Casa-comboio, prender-me à genial narrativa do princípio ao fim.

Independentemente da qualidade da escrita, o romance, que é histórico, dá a conhecer uma parte importante da nossa história materializada no conhecimento do epílogo do Estado Português da Índia. Na verdade, em 1961, os acontecimentos e os pormenores da entrada da União Indiana em Goa, Damão, Diu e Nagar-Aveli, nunca foram revelados ao povo português. A forma como as coisas aconteceram estão bem ilustradas nesta obra, embora o livro não se detenha duma forma principal nesta questão.

Raquel Ochoa conta a saga da família Carcomo ao longo de 4 gerações desde 1885 em Damão, até 2001 em Portugal. Pelo meio, a autora mostra-nos pela escrita os locais onde, através dos tempos, se desenrolam todos os momentos, bons e maus, desta família, desde Honorato, um filho Rudolfo, um neto Baltazar, uma bisneta Clara e todos de apelido Carcomo.

Raquel Ochoa nasceu em 1980 em Lisboa. Começou por escrever crónicas de viagens em resultado das suas reportagens e, à Índia, já foi mais de uma vez.

Edição da Gradiva e a primeira em Março de 2010.

Silvestre Félix

(Imagem: Cartaz com a capa do livro do blogue da autora)

JOSÉ AFONSO E AS PALAVRAS

Zeca Afonso é a melhor tradução da luta pela democracia no nosso país.

As suas composições e a passagem da mensagem através da sua voz foram, durante os últimos anos de ditadura e primeiros da democracia, a forma mais genuína e verdadeira de mobilizar os portugueses para a criação duma sociedade mais justa.

José Afonso morreu há 24 anos, a 23 de Fevereiro de 1987. Passado todo este tempo, não nos podemos admirar com o ressuscitar de algumas das suas obras porque as palavras escritas há 40 anos ou mais, estão atualizadíssimas.

Naturalmente que do ponto de vista ideológico, Zeca Afonso sempre se identificou com uma esquerda que ele fazia questão de afirmar, independente. Tinha opiniões muito próprias e nunca se submeteu à disciplina de nenhum partido.

Durante a ditadura a pide não lhe deu descanso. Muitas das suas canções ou não chegavam a ser publicadas ou, se o eram, em pouco tempo a censura dava o dito por não dito, e vinha a proibi-las mais tarde.

Em 1974, os Capitães de Abril viriam a escolher uma das suas composições, a “Grândola Vila Morena” para senha do arranque das operações que viriam a derrubar a ditadura no nosso país.

Silvestre Félix

FOI NUM JOGO DE FUTEBOL

As emoções e as paixões que um jogo de futebol comporta, estão muito para além do que é razoável para um normal ser humano.

Todos nós devíamos ter capacidade para repelir o que é mau, nem que para isso o corpo tivesse de estar equipado com uma espécie de alarme. Esse acessório, sempre que houvesse perigo dum desentendimento, desataria num berreiro tal, que, automaticamente, desativaria a má onda e tudo voltava à paz.

Ontem, assistimos mais uma vez a tudo o que de pior nós transportamos. Não interessa se foi em Alvalade ou na Luz. Foi num jogo de futebol. Ouvindo as duas partes em confronto – a polícia e os adeptos – não conseguimos chegar a nenhuma conclusão sobre quem não fez o que devia fazer.

Um Estado civilizado não pode admitir que situações destas aconteçam. Em cenários como os de ontem, as regras devem ser claras e aplicadas aos prevaricadores duma forma sumária e sem contemplações.

Temos muitas outras coisas que nos preocupam, não podemos gastar energias com razões comezinhas e fanatismos primários.

Silvestre Félix

NUM DESTES DIAS

Anti - democracia  net de Wilson Ferrer Um dia, passados para lá de cinquenta e cinco, em anos contados, no tempo duma senhora que era outra...